Pensamentos e atitudes que dificultam sua vida no Japão

Nem toda dificuldade vem do país. Às vezes a forma como a gente encara o lugar também pesa bastante no resultado final.

Muita gente diz que a vida no Japão é difícil, e às vezes realmente é. Só que nem sempre o problema está apenas no país, no trabalho ou nas pessoas ao redor. Em vários casos, alguns pensamentos e atitudes acabam piorando ainda mais uma experiência que já seria naturalmente desafiadora.

Neste artigo quero falar justamente sobre isso. Não para dizer que todo mundo que sofre no Japão está errado, e muito menos para fingir que viver fora é fácil. A ideia aqui é olhar para certos hábitos mentais e comportamentos que podem complicar a adaptação de qualquer pessoa, seja no Japão ou em qualquer outro país.

Akita inu em ambiente japonês
Viver no Japão pode ser ótimo, difícil, cansativo e surpreendente ao mesmo tempo. Boa parte da experiência depende das circunstâncias, mas outra parte também depende da forma como a pessoa decide encarar o que está vivendo.

1. Achar que tudo é difícil só porque você é estrangeiro

Tem gente que coloca na cabeça que a vida no Japão vai ser travada o tempo inteiro pelo simples fato de não ser japonesa. Claro que existem barreiras reais. Existe diferença cultural, existe preconceito em alguns contextos e existe limitação prática. Só que transformar isso na explicação de tudo costuma piorar muito as coisas.

Quando a pessoa parte da ideia de que sempre será rejeitada, ela mesma começa a se fechar. Em vez de tentar entender como se encaixar melhor, aprender a língua ou observar como as coisas funcionam, ela já entra em modo de defesa. E viver no exterior assim é muito mais cansativo.

Isso não significa fingir que nenhum problema existe. Significa só não transformar a condição de estrangeiro em sentença definitiva de fracasso. Até porque existem muitos brasileiros e outros imigrantes que conseguiram construir uma vida boa no Japão, justamente porque aceitaram a realidade sem transformar tudo em fatalismo.

Brasileiros vivendo no Japão
Ser estrangeiro muda a experiência, mas isso não precisa virar prisão mental. Em muitos casos, o peso maior está menos na diferença em si e mais na forma como a pessoa decide carregar essa diferença todos os dias.

2. Fechar as portas dizendo que os japoneses são frios

Esse é um clássico. Muita gente sai do Brasil acostumada com contato físico, conversa alta, brincadeira rápida e intimidade acelerada. Aí chega no Japão, encontra um ritmo social bem diferente e conclui que os japoneses são frios, fechados ou distantes.

Mas uma coisa é cultura diferente, outra é falta de afeto. Quem já teve amizade real com japoneses sabe que eles podem ser extremamente gentis, leais, divertidos e prestativos. O problema é que o caminho até essa intimidade costuma ser mais lento e mais discreto.

Se você já entra achando que ninguém quer contato, provavelmente vai se comportar como alguém que também não quer contato. E isso fecha portas. Aprender japonês, entender o jeito da pessoa e respeitar o ritmo da amizade faz muita diferença. Se o tema te interessa, vale ler também como é a xenofobia, racismo e preconceito no Japão, porque entender limites reais ajuda a não confundir tudo.

Pessoas esperando trem no Japão
No Japão, muita convivência começa com observação, respeito ao espaço e constância. Nem toda amizade nasce rápido, mas isso está longe de significar que ela não pode ser profunda.

3. Viver comparando tudo com o Brasil

Comparar é inevitável até certo ponto. O problema começa quando a comparação vira hábito automático e destrutivo. A pessoa sai do Brasil, decide morar fora, e mesmo assim passa o tempo inteiro repetindo que no Brasil era melhor, que no Brasil tinha isso, que no Brasil funcionava daquele outro jeito.

Se era melhor em tudo, por que saiu? Essa pergunta pode soar dura, mas ela existe por um motivo. Quem vive criticando o lugar onde está, sem parar para entender o contexto, vai acabar se isolando e ficando ainda mais infeliz. Ninguém gosta de conviver com alguém que parece permanentemente em guerra com o ambiente ao redor.

Você pode sentir falta da família, da comida, do jeito das pessoas e até do caos conhecido. Isso é normal. O que complica é transformar saudade em desprezo pelo lugar atual. Se quiser comparar, compare com honestidade e sem cuspir no prato em que está comendo. Textos como Brasil ou Japão? Para onde escapar? ou Onde o custo de vida é mais alto? Brasil ou Japão? ajudam mais quando a comparação vira reflexão, não birra.

Símbolo de saudade e comparação entre Brasil e Japão
Sentir saudade do Brasil é natural. O problema começa quando toda experiência no Japão passa a ser julgada só pelo filtro da comparação automática e da insatisfação permanente.

4. Achar que reclamar é o mesmo que agir

Tem reclamação justa, claro. Reclamar de abuso, falta de pagamento, exploração, preconceito e desrespeito é necessário. Mas existe também a reclamação vazia, aquela que não busca solução, não organiza pensamento e não produz mudança alguma. Ela só alimenta negatividade.

Às vezes a pessoa passa anos repetindo que a rotina é ruim, que o emprego é ruim, que a cidade é ruim, que o Japão é ruim, mas não mexe em nada. Não muda de trabalho, não aprende a língua, não procura informação, não corta gastos, não replaneja a vida e não assume nenhuma decisão difícil.

Nesse ponto, reclamar vira anestesia. Dá a sensação de desabafo, mas não muda a realidade. E com o tempo isso corrói a pessoa por dentro.

5. Quebrar regras pequenas como se isso não tivesse consequência

Muita gente sai do Brasil sem perceber o quanto se acostumou a relativizar regra. Furou fila? Normal. Jogou lixo no chão? Acontece. Deu um jeitinho? Faz parte. Só que no Japão esse tipo de atitude pesa mais, porque o ambiente social inteiro funciona com base em previsibilidade, pontualidade e respeito coletivo.

Não estou dizendo que japonês é perfeito ou que todo mundo segue tudo o tempo inteiro. Mas é inegável que existe uma expectativa social diferente. E se a pessoa insiste em agir como se regra fosse detalhe sem importância, ela mesma vai dificultar a própria vida.

Rotina de trabalho e disciplina no Japão
No Japão, pequenos hábitos pesam mais do que muita gente imagina. Às vezes não é uma grande falha que complica a vida, e sim a soma de atitudes que mostram descuido com o ambiente e com os outros.

6. Se acomodar numa rotina que faz mal

Outro ponto importante é a acomodação. Tem gente que vive esgotada, presa numa rotina pesada, reclamando do mesmo trabalho há anos, mas não toma nenhuma atitude concreta para mudar. Nem sempre é simples mudar, eu sei. Só que aceitar uma rotina ruim como destino inevitável também destrói a pessoa aos poucos.

Às vezes a saída passa por reduzir hora extra, estudar mais, procurar outro setor, mudar de cidade, reorganizar gastos ou simplesmente parar de viver só para acumular coisa material. Já falamos disso em por que os japoneses gostam de fazer hora extra? e também em qual é o salário mínimo do Japão?. O dinheiro importa, mas não adianta destruir a própria cabeça para manter uma vida que nem você aguenta mais.

Conclusão

A vida no Japão pode ser difícil, sim. Só que certos pensamentos e atitudes acabam deixando tudo ainda mais pesado do que já seria naturalmente. Negatividade constante, comparação excessiva, reclamação vazia, resistência em se adaptar e orgulho demais costumam custar caro.

No fim, viver bem fora do país não depende só de trabalho ou sorte. Depende também de como a pessoa olha para si mesma, para o lugar onde está e para o que está disposta a mudar. Nem tudo estará no seu controle, mas muita coisa estará. E às vezes essa parte já faz uma diferença enorme.

Kevin Henrique

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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