Há muitos anos eu escrevo sobre o Japão, a ponto de isso ter virado meu principal trabalho. Curiosamente, eu nunca tinha parado para explicar com calma por que eu gosto tanto do Japão e por que, se pudesse escolher sem tantas amarras, eu preferiria viver lá em vez de continuar no Brasil.
Antes de qualquer coisa, este artigo é uma opinião pessoal. Não estou dizendo que o Japão é perfeito, nem que o Brasil não presta para ninguém. Existem pessoas felizes e tristes em todos os países, e cada pessoa tem uma realidade diferente. Mas, olhando para meus gostos, meu trabalho, meus objetivos e o estilo de vida que me atrai, o Japão combina muito mais comigo.
Nesses anos de Suki Desu, encontrei todo tipo de leitor: gente apaixonada pelo Japão, gente decepcionada com o Japão, brasileiros felizes no Brasil, brasileiros querendo sair correndo, e também pessoas que generalizam tudo para defender a própria experiência. Isso é normal. O problema é quando alguém tenta transformar uma opinião pessoal em verdade absoluta para todo mundo.

Eu já escrevi vários artigos falando da infelicidade de alguns brasileiros que moram no Japão. Entendo perfeitamente que gosto é algo pessoal. Se a pessoa se identifica mais com o jeito brasileiro de viver, com a família por perto, com o clima, com a comida e com a rotina do Brasil, é natural que ela prefira o Brasil. Cada um pode decidir o que é melhor para si mesmo, mas não para os outros. Tenha isso em mente.
Existem pessoas felizes e tristes em todos os países. O lugar ajuda, mas não resolve tudo sozinho.
Por que eu gosto tanto do Japão?
Algumas pessoas devem achar que sou viciado no Japão só por ter este site. A verdade é que tudo começou como hobby e virou trabalho. Eu não sou tão fissurado quanto alguns imaginam, nem acho que o Japão seja um paraíso sem defeitos. Só prefiro escrever sobre coisas boas, porque gosto de mostrar o lado positivo da cultura japonesa e porque isso atrai pessoas com a mesma curiosidade.
Claro que sempre aparece alguém que não consegue ver nada positivo sem tentar comentar algo negativo. Eu entendo críticas, mas existe uma diferença enorme entre apontar problemas reais e transformar qualquer elogio ao Japão em uma briga.

O principal motivo de eu querer morar no Japão é que meu trabalho gira em torno dele. Também tenho vontade de falar japonês no cotidiano, viver mais perto da cultura que deu origem ao site e experimentar de forma real aquilo que estudo há tantos anos. O Japão me parece um país mais dinâmico, cheio de pequenas descobertas no dia a dia.
Muitos brasileiros sonham com Estados Unidos, Canadá ou países da Europa. Eu acho todos esses lugares interessantes, mas eles não mexem comigo do mesmo jeito. O Japão tem uma mistura que sempre me chama atenção: tradição, tecnologia, mídia, paisagens, culinária, transporte, lojas, bairros estranhos e costumes que você não encontra com a mesma intensidade em outros lugares.

Para mim, o Japão é um país estranho no melhor sentido da palavra. Ele consegue ser muito japonês e, ao mesmo tempo, ter acesso a culturas do mundo inteiro. Moda, culinária, pontos turísticos, eventos, lojas e experiências parecem ter uma variedade quase infinita quando comparo com o que eu vivia no Brasil.
O fator principal, porém, está na cultura de educação, honestidade, hospitalidade e cuidado com o espaço público. Some isso à segurança, limpeza, transporte e várias facilidades do cotidiano, e fica fácil entender por que tanta gente se encanta. Se a pessoa tem condições de morar no Japão, gosta da cultura e consegue aproveitar a vida por lá, pode ter uma rotina muito divertida.

O que me afasta do Brasil?
Acho que muita gente entende quando falo que violência, falta de educação, corrupção, ignorância e desigualdade cansam qualquer brasileiro. O problema é que muita gente se acostuma com isso. Acostuma com rua suja, medo de ser assaltado, buracos, barulho, injustiça, salário baixo e preço alto.
Eu me importo com essas coisas. Para mim, é muito prazeroso andar na rua sem ver lixo espalhado, sem pisar em cocô de cachorro, sem ouvir música alta em todo lugar e sem precisar ficar segurando o celular como se estivesse cometendo um crime. Pode parecer detalhe para alguns, mas esses detalhes mudam completamente a sensação de viver em um lugar.

Eu sou uma pessoa bastante medrosa, apesar de nunca ter sido roubado. Mesmo assim, fico indignado com cada notícia ruim que aparece no país. E não acho que tudo dependa apenas do governo. Governo tem culpa em muita coisa, claro, mas a forma como as pessoas tratam o espaço público, respeitam regras e lidam umas com as outras também pesa muito.
Aquele “calor humano” que muitos brasileiros usam como orgulho nacional também não me convence sempre. Vejo muita gente confundindo proximidade com intromissão, sinceridade com grosseria e opinião com desânimo. Quantas vezes alguém escuta frases como “larga disso”, “desiste”, “isso não dá futuro” ou “pra que fazer isso?” só porque pensa diferente?

Eu ainda consigo suportar muitas dessas coisas, mas me sinto deslocado porque quase tudo o que desperta meu interesse está ligado ao Japão ou a culturas de fora. Futebol, música brasileira, clima quente, culinária tradicional brasileira, literatura e filmes nacionais nunca foram coisas que me prenderam muito. Não é ódio gratuito; é simplesmente uma falta de identificação.
Expectativa e realidade
É óbvio que em todos os lugares existem pessoas boas e ruins, problemas e benefícios, vantagens e limitações. Um dos principais motivos para alguém preferir morar no Brasil é a família, e nisso eu entendo totalmente. A única coisa que realmente me prende ao Brasil é a família. O resto, para mim, é substituível; família não.

Quando você mora no Japão, talvez tudo também se torne habitual. O que hoje parece incrível pode virar rotina. Se a pessoa continua vivendo sempre do mesmo jeito, sem experimentar coisas novas, ela pode enjoar da própria vida em qualquer país. Talvez seja por isso que muitos brasileiros que moram no Japão acabam querendo voltar ao Brasil: sentem falta de algo que lá não conseguem substituir.
Existe aquele ditado de que a grama do vizinho é sempre mais verde. Muitas vezes, só quando você abandona um lugar é que percebe do que sente falta. No meu caso, eu não me importaria de abandonar o Brasil, exceto pela família, porque não sinto que tenho muito a perder em termos de estilo de vida. Já quem pensa em abandonar o Japão precisa se perguntar se está disposto a trocar a segurança, a organização e outras vantagens por aquilo que sente falta no Brasil.
Esse é o problema de mudar para o Japão já pensando em voltar para o Brasil com dinheiro suficiente para construir uma mansão. Depois a pessoa percebe que a realidade é bem mais complicada. Japão não é fábrica de sonho pronto, e Brasil não é apenas um lugar ruim. Cada escolha cobra um preço.
No fim, eu prefiro o Japão porque ele combina mais comigo, com meu trabalho, com meus gostos e com a vida que imagino para mim. E você? Prefere morar no Japão ou no Brasil? Por quê?
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