Tenho em mãos o livro Encontro com poemas nipo-brasileiros. Selecionei alguns poemas que traçam, com delicadeza, essa transição difícil das ilhas distantes para este inferno tropical. O que mais me chama atenção é justamente a delicadeza com que esses textos tratam temas tão sensíveis. O livro também apresenta uma breve história dos rumos das formas artísticas japonesas em solo brasileiro. Os primeiros imigrantes chegaram aqui em 1908. Neste artigo, vamos ver um pouco sobre os três principais tipos de poemas que o livro destaca e algumas versões brasileiras desse estilo poético que contam um pouco sobre a imigração japonesa.
Poemas haikai (俳句)
Haikai é um estilo de poema escrito em linguagem simples, sem rima, estruturado em três versos que totalizam 17 sílabas. Ele utiliza uma linguagem sensorial para capturar um sentimento ou uma imagem. Essa forma poética expressa aspectos da natureza e sempre inclui um kigo, uma palavra-tema que geralmente é uma flor, um animal ou um fenômeno climático. Ao vir ao Brasil, o imigrante Nenpuku Sato recebeu de seu mestre uma missão a cumprir:
- Hatta utte haikaikoku o hiraku beshi
- Cultive a terra e construa um país de haicais. - Kyoshi Takahama
Nenpuku compôs seus haicais observando a natureza tropical. Um exemplo:
- O brilho
- das flores de café
- ao nascer da lua;
Ele cumpriu bem sua missão, pois o Brasil é o país em que mais haicaístas existem fora do Japão, e onde pessoas de diferentes etnias se encantam com os grêmios de haicai. Isso contrasta com outros lugares, cujos povos nem sempre acolhem a tradição da mesma forma.
| Rio Ribeira _ canção de colheitas de chá às suas margens. Kazue Koyama | Ao som do poema de Gonçalves Dias canta o sabiá. Reiko Akisue | No Ano Novo, telefonema ao Japão. Felicitações! Mitsue Ino |
| Sabiás gorjeiam_ sensação de aconchego no país hospitaleiro. Saoko Kosai | Retornar ao Japão _ no vasto campo seco sonhos enterrados. Kazuma Tomishige | Dia do imigrante_ amor à terra natal e louvor a este país. Haruno Nishida |
Tanka (短歌)
Tanka é uma modalidade poética com mais de 1300 anos de história, composta por 31 sílabas encadeadas e marcada pela expressão de sentimentos pessoais. As pessoas que se reúnem para manter essa tradição são verdadeiras guardiãs da cultura ancestral.
| Atravessando a rua com a nora de olhos azuis, mãos que me tocam transmitem calor. Reiko Abe | Passei a gostar mais de futebol do que do sumô, e assim fui me integrando entre os brasileiros. Asahiko Fujita |
Senryû (川柳)
Senryu é um poema satírico que surgiu em meados da Era Edo, no século XVII, e utiliza a linguagem moderna para se referir a fatos cotidianos.
Muitos dos poemas escritos em japonês perdem a métrica na tradução; no entanto, o sentimento de toda uma comunidade é o aspecto mais importante desta leitura, e ele permanece fresco e intacto. A literatura japonesa não desaparece com seus autores. Ainda restam muitos nomes centenários, e a nova geração, juntamente com os brasileiros admiradores dessas formas poéticas, levará adiante essa tradição, agora não mais apenas japonesa, mas também aclimatada ao Brasil.

| Envelheceram os imigrantes que ainda cantam a terra natal. Kobayashi Yoshiko | Não se mostra às crianças a tristeza de fazer das tripas coração. Suga Tokuji | Ser feliz é decisão de cada um. A felicidade florescerá onde cultivarmos. Kazuko Hirokawa |
Em 1987 foi fundado em São Paulo o Grêmio Haicai Ipê, sob a liderança de Hidekazu Masuda, carinhosamente chamado de Mestre Goga. Em 1996, um catálogo intitulado Natureza - berço do haicai, contendo 1400 kigos brasileiros, foi publicado em comemoração ao Centenário da Amizade Brasil-Japão.
Como tantas outras boas contribuições que os japoneses nos trouxeram, sua poesia enriquece nossa visão do mundo. Harmonizemo-nos, pois, com a natureza e com todos os outros povos, nossos irmãos. Em edições mais cuidadas, até uma impressão fine art ajudaria a preservar esse tipo de obra com mais carinho e valor cultural.
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