Shindo Renmei (臣道連盟; literalmente, "Liga do Caminho dos Súditos") foi uma organização composta por imigrantes japoneses. Ela atuou no estado de São Paulo durante a década de 1940.
Recusando-se a acreditar nas notícias da rendição do Japão no fim da Segunda Guerra Mundial, alguns de seus membros mais fanáticos usaram violência contra aqueles que aceitaram a derrota. A Shindo Renmei matou pelo menos 23 pessoas, todas nipo-brasileiras, e feriu outras 147.
Fundação da Shindo Renmei
Antes da organização existir, havia outra associação formada por japoneses católicos, chamada Pia, criada para ajudar os membros da diáspora japonesa.
No entanto, depois de um conflito entre japoneses e brasileiros em 1942, na cidade de Marília, a Pia foi desfeita e, no lugar dela, surgiu a Shindo Renmei. A organização tinha sede na capital paulista e também filiais em outras regiões do estado de São Paulo e do Paraná.
Logo depois da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, em 1945, o grupo recusou-se a aceitar a rendição japonesa às forças aliadas e acabou se consolidando como uma organização violenta.

Atividades da Shindo Renmei
Aos olhos da organização, a comunidade nipo-brasileira estava dividida em dois grupos:
Kachigumi, ou "os vitoriosos", acreditavam que a guerra ainda estava acontecendo, ou que o Japão tinha vencido. Eles eram, em geral, membros mais pobres da comunidade e ainda pretendiam retornar ao Japão.
Makegumi, ou "os derrotados", eram os que aceitaram a notícia da derrota japonesa. Normalmente, eram membros mais ricos da comunidade, mais informados e melhor adaptados à sociedade brasileira.
No meio da confusão, vários enganadores produziram falsos jornais e revistas japonesas com notícias sobre a "grande vitória" e começaram a vender terras nos supostos "territórios conquistados".
Outros vendiam iene, a moeda japonesa desvalorizada na época, para aqueles que pretendiam retornar ao Japão. Isso levou muitos Kachigumi à falência e, em alguns casos, ao suicídio. O grupo também escreveu listas com nomes de Makegumi que deveriam morrer por terem "traído" o imperador.
Kamegoro Ogasawara, proprietário de uma tinturaria em São Paulo, coordenava as ações punitivas. Muitas casas de embarque de propriedade japonesa serviram de esconderijo para os assassinos depois dos ataques.
Os assassinos da Shindo Renmei eram, em sua maioria, jovens. Eles enviavam cartas aos alvos antes de um assassinato, incitando-os ao seppuku para que pudessem "recuperar a honra perdida". Quem se recusava a cometer suicídio era perseguido e morto a tiros ou com uma katana.

Consequências para a comunidade nipo-brasileira
Como resultado das ações da Shindo Renmei, parte da população brasileira passou a enxergar todos os japoneses como fanáticos nacionalistas, mesmo sem que as ações da organização tivessem atingido diretamente os brasileiros em geral. Esse clima ajuda a entender por que muitos japoneses sofreram preconceito no Brasil no período e nos anos seguintes.
A situação ficou ainda mais grave depois do assassinato de um caminhoneiro brasileiro por um caminhoneiro japonês em 31 de julho de 1946. Isso levou muita gente a formar grupos de linchamento contra qualquer japonês que aparecesse pela frente, reforçando ainda mais várias generalizações sobre o Japão aos olhos dos brasileiros.
O fim da organização terrorista japonesa
Logo depois, o Exército e o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS) investigaram o caso nos estados de São Paulo e Paraná.
De acordo com a polícia de São Paulo, 31.380 nipo-brasileiros eram suspeitos de ter conexões com a organização. O DEOPS também investigou 376 nipo-brasileiros. Após a investigação, os líderes da Shindo Renmei foram presos.
Até hoje, membros mais antigos da comunidade nipo-brasileira daquela época preferem não comentar o assunto. Provavelmente, a geração nipo-brasileira mais recente nem chegou a ouvir falar da organização e de seus atos.
Existe ainda um filme brasileiro de 2011, Corações Sujos, de Vicente Amorim, que conta essa história. O livro que inspirou o filme continua sendo uma boa referência para quem quer entender melhor esse período. Em um contexto mais amplo, vale até procurar um documentário histórico ou um curso de história do Japão para enxergar como esses eventos se encaixam no século XX. Para quem quiser ampliar a visão desse lado mais pesado do século, também vale revisitar temas como a Unidade 731, a relação entre Coreia e Japão e até a propaganda de guerra em Tokio Jokio.
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