Hoje quero falar sobre algumas generalizações e comentários preconceituosos que muitos japoneses e descendentes ainda enfrentam no Brasil e em outros países. Muita gente adora apontar o dedo para o preconceito dos outros, mas ignora as próprias atitudes do dia a dia.
Quando o assunto é Japão, basta aparecer timidez, diferença cultural ou dificuldade de socialização para surgir alguém dizendo que japonês é frio, racista ou arrogante. Claro que existem pessoas complicadas em qualquer lugar do mundo, mas transformar um povo inteiro em caricatura continua sendo preconceito.
Neste artigo, quero comentar alguns estereótipos bem comuns que ainda aparecem em piadas, comentários e situações constrangedoras. Alguns parecem pequenos, mas repetidos o tempo todo acabam cansando bastante.
A ideia de que japoneses só gostam de orientais
Muita gente ainda acredita que japoneses querem se relacionar apenas com asiáticos, como se todos tivessem a mesma visão sobre casamento, amizade e convivência. Essa ideia simplifica demais a realidade e ainda alimenta a noção errada de que todo japonês vive obcecado com pureza racial.
Na prática, o que muita gente interpreta como rejeição pode ser apenas timidez, barreira de idioma, diferença de costumes ou falta de intimidade. Isso não significa que japoneses não gostem de estrangeiros ou que não queiram expandir seu círculo de amizade.

Esse mito também ganhou força porque muitos descendentes sofreram hostilidade durante e depois da Segunda Guerra. Eu já falei melhor sobre isso no artigo sobre japoneses sofrendo preconceito no Brasil.
Ao mesmo tempo, também existem japoneses que gostam bastante de se relacionar com estrangeiros. Em alguns casos isso até virou estereótipo, como no assunto das gaijin hunter. Ou seja, a realidade é muito mais variada do que essas ideias prontas.
Piada com corpo e aparência
Outro tipo de preconceito aparece nas piadas sobre altura, olhos, formato do corpo, peito das japonesas ou órgão genital masculino. Tem gente que trata isso como humor, mas no fundo é só falta de respeito.
Não faz sentido transformar características físicas em competição ou motivo de deboche. Quando alguém insiste nesse assunto, geralmente está revelando mais sobre a própria imaturidade do que sobre os japoneses.
Também já comentei em outro artigo sobre a obsessão ocidental com o tema dos seios das japonesas. Esse tipo de fixação acaba reduzindo pessoas reais a estereótipos vazios.

Zombaria com o idioma japonês
Tem gente que adora gritar palavras aleatórias, inventar sons e fingir que isso é japonês. Outros soltam um arigatou em tom de deboche, como se o idioma inteiro fosse uma piada. Parece brincadeira boba, mas continua sendo uma forma de menosprezar a língua e quem fala ela.
Quem estuda japonês sabe muito bem como o idioma é rico, complexo e cheio de nuance. O problema é que muita gente prefere repetir piadinha pronta em vez de demonstrar curiosidade real.
"Todo asiático é igual"
Mandar alguém "abrir os olhos", confundir nacionalidade de propósito ou tratar todo asiático como se fosse a mesma coisa é mais um hábito que muita gente normalizou. Japonês, chinês, coreano e outros povos asiáticos não deixam de ter identidade só porque alguém de fora não aprendeu a diferenciar.
Vale lembrar que a dificuldade de reconhecer rostos pouco familiares pode acontecer em vários contextos, mas isso não justifica grosseria. Uma coisa é não saber diferenciar à primeira vista. Outra bem diferente é transformar isso em piada ou ofensa.

"Vocês comem essas coisas estranhas?"
Outro comentário bem comum é presumir que japonês come inseto, cachorro ou qualquer outra coisa tratada como exótica por quem mal conhece a culinária do país. Também tem a velha ideia de que japonês come sushi todos os dias, como se a alimentação do Japão se resumisse a isso.
Na prática, a comida japonesa do dia a dia inclui arroz, carne, peixe, macarrão, legumes, sopas e vários pratos caseiros. É uma culinária ampla, não uma caricatura montada por quem conhece só restaurante temático.
E junto dessa ignorância ainda aparecem perguntas como: você sabe comer de hashi, na sua casa tem garfo, vocês só comem peixe cru? Tudo isso pode soar inocente para quem pergunta, mas cansa para quem escuta sempre.
"Pastel de flango com catupili"
Essa talvez seja uma das zombarias mais repetidas quando o assunto é idioma asiático. Além de misturar tudo, ela ainda trata o sotaque de milhões de pessoas como piada pronta.
No caso do japonês, nem faz sentido usar esse exemplo como se fosse representação fiel da língua. O sistema sonoro do idioma é diferente, e é justamente por isso que certas adaptações acontecem. Se a pessoa realmente tiver curiosidade, vale estudar o tema em vez de usar a mesma frase de sempre.
Se quiser entender melhor esse tipo de nuance sonora, o vídeo a seguir já ajuda a visualizar a pronúncia:
Inventar características sobre japoneses
Muita gente acha que todo japonês precisa ser gênio em matemática, saber construir robô, ser impecavelmente limpo, reservado, educado e eficiente o tempo inteiro. De novo, é a velha mania de transformar pessoas reais em pacote de expectativas.
Junto com isso vêm apelidos, comentários sobre aparência, críticas sobre costumes que a pessoa nem conhece e até a dificuldade de aceitar descendentes orientais como brasileiros comuns. Em muitos casos, o preconceito aparece justamente disfarçado de brincadeira.
Isso não significa que não exista também preconceito no Japão. O assunto é delicado e vale ser visto dos dois lados. Mesmo assim, antes de acusar japoneses de xenofobia por reflexo, muita gente no Brasil deveria olhar primeiro para o próprio comportamento.
No fim, meu ponto é simples: estereótipos podem até parecer leves para quem faz, mas pesam para quem escuta a vida inteira. Se a ideia é respeitar outras culturas, isso começa justamente nas pequenas atitudes.
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