Os eventos de anime ainda valem a pena?

Mais público nem sempre significa a mesma experiência de antes.

Se você gosta de anime, mangá, dorama, tokusatsu, cosplay e cultura japonesa em geral, provavelmente já passou por algum evento do tipo. No Brasil, esse tipo de encontro cresceu muito entre o fim dos anos 90 e o começo dos anos 2000, junto com a popularização da internet e com a exibição de animes em canais como Manchete, Cartoon Network, Toonami e Animax. Foi ali que muita gente começou a descobrir esse universo de forma mais coletiva.

Cosplayers em evento de anime representando a parte mais visual da cultura otaku

Eventos como Anime Friends e SANA acabaram virando referências para o público otaku brasileiro. No começo, a sensação era bem mais clara: a proposta girava em torno de anime, mangá, produtos ligados ao Japão, cosplay, trilhas, exibição de material e um certo espírito de comunidade que hoje muita gente sente falta.

Com o tempo, porém, esses eventos foram crescendo, se misturando cada vez mais com o universo geek, pop, coreano, gamer e nerd em geral. E é aí que aparece a pergunta que muita gente faz: os eventos de anime ainda valem a pena?

Este texto é uma opinião, então não encare como verdade absoluta. A ideia aqui é refletir sobre o que mudou e por que uma parte do público sente que esses eventos deixaram de ser exatamente o que eram.

Ainda são bons?

Depende muito do que você espera encontrar. Se a sua ideia é curtir um grande encontro de cultura pop, ver atrações variadas, passear entre estandes, encontrar cosplayers, tirar foto, comprar colecionáveis e passar o dia com amigos, provavelmente sim. Ainda pode valer bastante a pena.

Mas se você vai esperando um evento fortemente centrado em cultura japonesa, anime e mangá, a resposta já fica bem menos simples. Em muitos casos, o foco foi se espalhando tanto que o elemento japonês virou apenas uma parte entre várias outras.

Eu consigo falar disso com mais clareza no caso do SANA, porque foi o evento que frequentei mais vezes. A impressão que tive ao longo dos anos foi justamente essa: menos Japão, menos anime como centro, e mais mistura ampla de entretenimento. Não estou dizendo que isso é automaticamente ruim. O problema é quando o nome promete uma coisa e a experiência real entrega outra.

Público e cosplay em encontro ligado à cultura pop japonesa

Eventos de anime ou eventos de cultura pop?

Esse talvez seja o ponto principal. Muita gente continua chamando de “evento de anime”, mas em vários casos o que existe hoje é um evento de cultura pop ampla. Tem espaço para HQ, videogame, streamer, influenciador, K-pop, salas temáticas, artistas diversos, shows, comida e uma porção de atrações que nem sempre têm relação direta com anime ou Japão.

Do ponto de vista comercial, dá para entender. Quando o evento cresce, os organizadores querem atrair mais público, mais patrocinador, mais estande, mais venda e mais repercussão. Abrir o leque faz sentido financeiramente. O problema é que essa expansão muda o coração do evento.

Para quem viveu as versões mais antigas, fica aquela sensação estranha: você vai a um “evento de anime” e encontra menos mangá, menos material importado em japonês e menos conteúdo realmente ligado ao Japão do que em outros lugares, como festivais culturais ou até bienais do livro.

Foi exatamente esse tipo de frustração que me pegou em certas edições. Houve um momento em que procurei mangás originais em japonês por vários estandes e praticamente não achei nada. Aquilo me fez perceber que a proposta já tinha mudado bastante, mesmo que o nome continuasse sugerindo outra coisa.

Produtos colecionáveis de cultura pop que hoje dominam muitos eventos antes mais focados em anime

A invasão do K-pop e a perda de foco

Um dos sinais mais visíveis dessa mudança foi o crescimento do K-pop dentro desses eventos. Não tenho nada contra quem gosta de cultura coreana. O ponto não é esse. O que incomoda parte do público é ver um evento que nasceu com foco em anime, mangá e Japão virar um espaço onde, muitas vezes, o conteúdo coreano e pop geral parece ter mais destaque do que o material japonês.

Na prática, o evento deixa de falar com um nicho mais específico e começa a se vender como um grande guarda-chuva de entretenimento jovem. Isso amplia o alcance, mas também dilui a identidade original.

E aqui está a parte que costuma dividir opiniões: para muita gente nova, isso é ótimo. Para muita gente antiga, isso descaracteriza o evento. As duas leituras existem ao mesmo tempo.

K-pop em destaque como parte da transformação dos eventos de anime no Brasil

Então ainda vale a pena ou não?

Eu diria que vale, mas depende do motivo pelo qual você vai. Se você vai pelo encontro social, pela variedade, pela experiência, pela nostalgia, pelo cosplay ou para passear com amigos, ainda pode ser muito divertido. Se você vai esperando um mergulho forte em cultura japonesa, anime e mangá, talvez saia decepcionado em vários casos.

O problema não é o evento crescer. O problema é quando ele muda tanto que o nome e a expectativa já não combinam mais com o que está sendo oferecido. Nesse cenário, talvez o mais honesto fosse assumir de vez que muitos desses encontros hoje são festivais de cultura pop, não apenas de anime.

No fim, minha crítica não é à existência de novas atrações. É à perda de foco. Eu ainda entendo por que os eventos tomaram esse rumo, mas isso não me obriga a fingir que a experiência continua a mesma para quem procurava algo mais ligado ao Japão.

Se você quiser complementar essa leitura, também vale ver nosso outro texto sobre como são os eventos de anime e o artigo sobre o que significa ser otaku. Eles ajudam a colocar esse debate em perspectiva.

Kevin Henrique

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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