Na cultura japonesa, não é tão comum as pessoas escolherem um lado em público. Mesmo quando têm preferência ou opinião, muitos japoneses preferem se manter neutros. Neste artigo, quero falar sobre esse aspecto do Japão que eu costumo chamar, brincando, de cultura do isentão.
No Brasil, a palavra isentão se tornou um termo pejorativo para definir quem não toma partido em determinado assunto, principalmente em política, leis e temas polêmicos. Ainda assim, a ideia pode ser usada para qualquer pessoa que prefere se manter neutra.
Alguns chamam os isentões de hipócritas, talvez porque essas pessoas até tenham uma opinião, mas não querem expor ou apoiar publicamente quem pensa parecido. No Brasil, essa atitude costuma gerar brigas, ironias e ódio. No Japão, muitas vezes acontece o contrário: se envolver demais é que pode parecer falta de cuidado com o ambiente.

Como os japoneses encaram a neutralidade?
Se um japonês decide não se envolver em determinado assunto ou não escolher um lado, muitas vezes ele faz isso como forma de respeito pelas duas pessoas. Também existe a percepção de que tomar partido pode causar problemas para todos os envolvidos.
O Japão preza muito a paz do próximo. Quando uma pessoa é forçada a escolher um lado, ela pode colocar essa paz em risco. Não importa se o assunto parece importante; muitos japoneses tentam se manter o mais neutros possível para preservar a harmonia do grupo.
Outra coisa que mantém muitos japoneses calados é o medo e a timidez. Culturalmente, existe uma certa vergonha de expressar o que se pensa de forma direta, e isso pode virar um problema social quando ninguém fala nada.
Existe até um ditado japonês muito conhecido:
O prego que se destaca é martelado para baixo.

A ideia é simples: quando você se destaca, também fica mais sujeito a críticas. Esse é um dos motivos pelos quais muita gente no Japão evita expressar honestamente sua opinião, guardando-a para si mesma ou falando apenas em ambientes de confiança.
Isso conversa com conceitos como honne e tatemae, aquela diferença entre o que a pessoa sente de verdade e o que ela mostra em público para manter a convivência funcionando.
Pode parecer algo ruim, mas essa atitude também tem benefícios. Ela ajuda a manter a paz, a educação e a sensação de ordem em muitos ambientes do Japão. Como nem tudo são flores, ser isentão também tem seus pontos negativos.
Quando não se envolver vira problema
Os japoneses às vezes levam essa isenção a níveis muito extremos, e isso pode se tornar um grande problema. Algumas pessoas se isentam de coisas que deveriam receber atenção, como bullying, injustiças no trabalho e desigualdades sociais.
No caso do ijime, o bullying japonês, tanto alunos quanto professores podem acabar se mantendo neutros diante do que acontece entre a vítima e o agressor. Muitas vezes, os outros alunos têm medo de se tornar as próximas vítimas, então ignoram a situação ou até pioram o sofrimento de quem já está sendo atacado.

A mesma lógica também aparece em outros pontos da sociedade. Quando ninguém quer se envolver, fica mais fácil fazer vista grossa para machismo, abusos no trabalho, desigualdade e injustiças pequenas que vão se acumulando. Não estou dizendo que isso só existe no Japão, claro. Mas a busca por harmonia pode dificultar a denúncia ou a confrontação direta.
Não se envolver faz parte de muitos hábitos sociais japoneses, e isso causa problemas que são constantemente discutidos dentro e fora do país. Ao mesmo tempo, essa cultura da neutralidade também ajuda a evitar brigas desnecessárias e cria uma convivência mais calma em diversos aspectos.
O que eu penso sobre isenção?
Eu sou uma pessoa bastante isenta, principalmente na política, mas tenho meus motivos religiosos. Uma vez, uma crente brigou comigo porque eu disse que não voto, quebrando totalmente a liberdade de escolha que cada cidadão tem.
Se o meio, a neutralidade ou a isenção é uma das opções que a pessoa tem para escolher, não vejo absolutamente nenhum problema. Se alguém quer que eu tome o lado dela e fica com raiva ou triste porque escolhi ficar neutro, problema dela. Eu tenho esse direito.
Sem mencionar que escrevo em um site com leitores de direita e esquerda. Imagina se eu escolher um lado? Eu já gero bastante discussão quando escrevo sobre assuntos polêmicos. O que dizer de política?

Alguns youtubers são criticados por não escolher um lado, e eu provavelmente também seria criticado por isso. Outros são criticados apenas por escolher um lado. Na internet, parece que sempre existe alguém pronto para transformar qualquer opinião em guerra.
Eu não escolho o melhor console, apesar de ser nintendista. Eu não critico o Android toda hora, por mais que eu deteste e use iOS. Eu não apoio a direita cegamente, por mais que me identifique com algumas ideias e odeie o envolvimento dos políticos em diversas áreas.
É claro que não sou 100% isentão. Tenho minhas preferências e escolhas, mas não forço ninguém a pensar como eu e nem critico outra pessoa por pensar diferente. Na verdade, acho grande idiotice essas discussões sem sentido que acontecem na internet.
Eu já escrevi em um artigo sobre movimentos sociais que, se a pessoa quer mudar o mundo, ela poderia começar saindo da frente do computador, limpando o próprio quarto e ajudando a família e os vizinhos. Apesar disso, ainda gosto de escrever esses textões para fazer as pessoas refletirem.
Desde cedo, muitos japoneses limpam seus bairros e escolas. Eles não gastam tanto tempo discutindo opiniões pessoais, brigando na internet ou caçando encrenca. Claro que o Japão também tem seus problemas, mas essa parte me faz pensar: tente fazer o que está ao seu alcance e não gaste sua vida se estressando à toa em discussões que não levam a lugar nenhum.
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