O período de Olimpíadas sempre reacende uma curiosidade boa em quem gosta de cultura japonesa: por que tantos brasileiros se destacam em lutas que nasceram ou foram organizadas no Japão? O judô é o exemplo mais forte, mas não é o único. Karatê, sumô e aikidô também criaram raízes por aqui, cada um do seu jeito.
Boa parte dessa história passa pela imigração japonesa, pelos clubes de colônia e por mestres que chegaram ao Brasil trazendo muito mais do que golpes e técnicas. Eles trouxeram disciplina, filosofia, vocabulário, rituais de dojo e uma relação bem diferente com treino e respeito. Neste artigo quero mostrar algumas lutas japonesas praticadas no Brasil e como elas foram parar no nosso cotidiano.

Judô
O judô é provavelmente a luta japonesa mais forte no Brasil quando falamos de resultado esportivo. A Confederação Brasileira de Judô registra 28 medalhas olímpicas do país na modalidade, incluindo os pódios de Paris 2024. Não é pouca coisa: o judô virou um dos maiores símbolos do Brasil nos Jogos.
A chegada da modalidade por aqui está ligada aos primeiros imigrantes japoneses, mas ganhou muita força com Mitsuyo Maeda, o famoso Conde Koma, que chegou ao Brasil em 1914. Maeda passou por várias cidades e acabou se fixando em Belém, no Pará, deixando influência direta nas artes marciais brasileiras.
É impossível falar dele sem lembrar da família Gracie e do desenvolvimento do jiu-jitsu brasileiro. Claro que judô e jiu-jitsu seguiram caminhos próprios, mas essa ponte entre Japão e Brasil mostra como uma arte marcial pode se transformar quando encontra outro país, outra cultura e outra necessidade de treino.

Karatê
O karatê tem uma história um pouco diferente. Ele também veio com a presença japonesa no Brasil, mas demorou mais para se organizar como prática estruturada. Um dos nomes mais importantes nesse começo foi Harada Mitsusuke, que passou a residir em São Paulo na década de 1950 e ajudou a ensinar Karatê-Dō a alunos brasileiros.
Por muito tempo, o karatê ficou bastante ligado aos clubes e academias de comunidades nipo-brasileiras. Depois foi se espalhando, ganhou federações, estilos diferentes e aquele espaço clássico nas academias de bairro. Muita gente começou no karatê por disciplina, defesa pessoal ou influência de filmes, animes e cultura pop.
Apesar de não ter a mesma quantidade de medalhas olímpicas do judô, o karatê brasileiro tem tradição em campeonatos pan-americanos e mundiais. E, para quem gosta da parte cultural, ele é uma das portas mais conhecidas para entender ideias como respeito ao mestre, etiqueta no dojo, kihon, kata e kumite.

Sumô
O sumô é uma das lutas mais antigas e simbólicas do Japão. Muita gente lembra apenas dos lutadores profissionais japoneses, dos rituais e do dohyo, mas o sumô no Brasil tem uma história curiosa. A modalidade chegou com imigrantes japoneses no início do século XX e o primeiro campeonato citado em São Paulo aconteceu em 1914.
A Federação Paulista de Sumô foi criada em 1962, e a Federação Brasileira entrou em vigor em 1998. No Brasil, a modalidade cresceu principalmente no formato amador, com participação masculina e feminina. Isso surpreende muita gente, porque a imagem mais popular do sumô costuma vir do circuito profissional japonês, muito mais fechado e tradicional.
Mesmo sem um circuito profissional como o do Japão, o sumô brasileiro já revelou atletas fortes e mantém treinos em espaços ligados à comunidade japonesa. Se quiser mergulhar mais na rotina dos rikishi e nos costumes do esporte, temos também um artigo sobre a vida de um lutador de sumô.

Aikidô
O aikidô chegou depois das outras modalidades citadas aqui. A arte foi criada por Morihei Ueshiba no Japão e carrega uma proposta menos competitiva, com ênfase em harmonia, equilíbrio, movimentação circular e uso da energia do ataque sem bater de frente com ela.
No Brasil, o aikidô foi introduzido por Shihan Reishin Kawai em 1963. Além de mestre de aikidô, Kawai também era ligado à medicina oriental, como shiatsu e acupuntura, o que combina bastante com a forma como muitos praticantes enxergam essa arte: não apenas como luta, mas como treino de corpo, postura e mente.
Talvez por isso o aikidô nunca tenha ficado tão popular quanto judô ou karatê. Ele não tem o mesmo apelo competitivo, nem a mesma presença olímpica. Ainda assim, quem procura uma arte marcial japonesa mais filosófica costuma se interessar bastante por ele.
Por que essas lutas japonesas deram certo no Brasil?
Acho que a resposta passa por três coisas: imigração, disciplina e adaptação. A imigração japonesa trouxe mestres, clubes e famílias que mantiveram essas práticas vivas. A disciplina ajudou as artes marciais a entrarem em escolas, associações e academias. E a adaptação fez tudo isso conversar com o jeito brasileiro de treinar, competir e ensinar.
Também existe algo muito bonito nessa mistura. Uma arte criada no Japão pode ganhar sotaque brasileiro sem deixar de ser japonesa. O judô brasileiro, por exemplo, tem uma identidade própria no tatame, mas ainda carrega Jigoro Kano, Maeda, etiqueta e tradição. O mesmo acontece, em menor escala, com karatê, sumô e aikidô.
No fim, essas lutas não chegaram aqui apenas como esporte. Elas ajudaram a criar pontes entre Brasil e Japão, e talvez seja por isso que continuam tão presentes. Você já praticou alguma arte marcial japonesa? Judô, karatê, aikidô, sumô ou outra?
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