Quando a gente fala de esportes no Japão, muita gente pensa primeiro em beisebol, sumô ou artes marciais. Mas o futebol também ganhou um espaço enorme por lá, especialmente depois da criação da J-League e do crescimento da seleção japonesa. Hoje o Japão não é mais aquele país simpático que só participa: é uma seleção que incomoda, revela jogadores e coloca atletas em clubes grandes da Europa.
O curioso é que a relação japonesa com jogos de bola vem de muito antes do futebol moderno. Antes de existir sakka, a palavra usada para soccer no Japão, já existia o kemari, um jogo antigo, elegante e bem diferente da pancadaria competitiva que a gente imagina quando fala de futebol.

O kemari e a origem cultural do jogo de bola
O kemari surgiu há mais de mil anos e era praticado por nobres da corte. A ideia não era vencer um adversário, marcar gol ou humilhar o outro time. O objetivo era manter a bola no ar, usando os pés, em um jogo de colaboração, ritmo e elegância.
Isso já mostra uma diferença interessante. Enquanto o futebol moderno nasce muito ligado à competição, o kemari tem um lado quase cerimonial. O foco estava na harmonia do grupo, nos movimentos e na beleza da prática. Ainda hoje dá para ver demonstrações de kemari em alguns eventos tradicionais no Japão.
Claro que não dá para dizer que o futebol japonês nasceu diretamente do kemari como se fosse uma linha reta. O sakka moderno veio por influência estrangeira. Mesmo assim, acho bonito ver como o Japão conseguiu colocar uma paixão moderna dentro de um país que já tinha sua própria memória de jogos com bola.
Como o futebol moderno chegou ao Japão
O futebol moderno entrou no Japão principalmente pela influência ocidental, escolas e instituições ligadas ao esporte. Aos poucos, o jogo foi ganhando espaço entre estudantes, clubes e empresas, até chegar à antiga Japan Soccer League, que era mais semiprofissional e corporativa.
Durante muito tempo, o futebol não tinha o mesmo peso cultural do beisebol. O Japão gostava do esporte, mas faltava uma liga profissional forte, clubes com identidade local e aquele sentimento de pertencimento que faz uma torcida realmente nascer.
Essa mudança começou a ganhar força no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, quando o país decidiu profissionalizar o futebol de verdade. Foi aí que a história mudou.
Zico, brasileiros e a virada do futebol japonês
Para nós brasileiros, um dos pontos mais interessantes dessa história é a presença de Zico. Ele chegou ao Kashima Antlers no começo dos anos 1990 e virou uma figura central na profissionalização e popularização do futebol japonês. Não foi apenas um craque famoso indo jogar no exterior; ele ajudou a criar mentalidade, cobrança e respeito pelo jogo.
Zico não foi o único. Ruy Ramos, Alcindo e outros brasileiros também ajudaram a criar essa ponte entre Brasil e Japão. Esse assunto rende bastante, e temos um artigo só sobre os brasileiros que popularizaram o futebol no Japão.

Também não dá para ignorar a influência da cultura pop. Animes como Captain Tsubasa, conhecido no Brasil como Super Campeões, fizeram muita criança japonesa sonhar com futebol antes mesmo de o país virar potência asiática. Temos uma lista com animes de futebol para quem gosta dessa mistura.
A criação da J-League
A J-League começou em 1993 e foi um divisor de águas. Em vez de times ligados apenas a empresas, a liga passou a trabalhar com clubes, cidades, torcida, estádio, marketing e identidade local. Foi um passo enorme para transformar o futebol em algo mais próximo do público.
No início, a liga também chamou atenção com nomes estrangeiros. Gary Lineker, Dragan Stojkovic, Salvatore Schillaci e vários brasileiros passaram pelo Japão. Alguns chegaram em fim de carreira, mas ajudaram a dar visibilidade para um campeonato que ainda estava construindo reputação.

Hoje, a liga é bem mais madura. Ela não depende apenas de estrelas estrangeiras; forma jogadores, exporta talentos e sustenta uma cultura de clube que vai muito além da seleção. Quem quiser conhecer melhor os times pode ver nosso artigo sobre times da J1 League.
A seleção japonesa e o Samurai Blue
A seleção japonesa, conhecida como Samurai Blue, cresceu junto com essa estrutura. O Japão passou a disputar Copas do Mundo com regularidade, revelou jogadores como Hidetoshi Nakata, Shunsuke Nakamura, Keisuke Honda, Shinji Kagawa, Takumi Minamino e muitos outros.
Hoje é comum ver jogadores japoneses em ligas da Alemanha, Inglaterra, Espanha, França, Portugal e Bélgica. Isso muda tudo, porque a seleção ganha atletas acostumados a ritmo internacional, pressão e jogos grandes.
Eu gosto de observar também a postura dos torcedores japoneses. O mundo costuma lembrar deles limpando estádio em Copa do Mundo, mas isso combina com uma cultura esportiva mais ampla. Já falei disso no artigo sobre torcedores de futebol japoneses.
O futebol japonês ainda vai crescer?
Na minha opinião, sim. O Japão já deixou de ser promessa faz tempo, mas ainda tem espaço para crescer em força física, profundidade de elenco e presença de clubes em competições internacionais. O mais importante é que a base parece sólida: liga organizada, trabalho de formação, clubes com identidade e uma seleção que não entra mais em campo com medo.
O futebol japonês é interessante justamente por isso. Ele não apagou a tradição do país, mas também não ficou preso a ela. Saiu do kemari, absorveu o sakka moderno, aprendeu com brasileiros, europeus e com a própria disciplina japonesa. No fim, virou uma história bem japonesa: pegar algo de fora, adaptar com paciência e transformar em algo próprio.
Se você estuda japonês, também pode gostar da nossa lista de termos de futebol em japonês. Futebol também é uma boa desculpa para aprender vocabulário sem parecer que está estudando.
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